Fuga(z)

o espontâneo, o pormenor, o retrato, o sentido - "Quem poderá deter o instante que não para de morrer?" (Sophia M.B. Andresen)

segunda-feira, abril 17, 2006

O Bicho da escrita

Num blog de seu nome "caminho das palavras" parece-me bem começar por postar um texto de Rui Zink a propósito da Comemoração do Dia Mundial do Livro em 2004. Podia dizer k o texto é um dos meus preferidos ou tecer considerações artísticas a respeito da sua qualidade (que não nego) mas a verdade é k o encontrei por acaso entre outros e achei que se enquadrava no contexto. Sem mais conversa foleira transcrevo o texto, não na sua integra (pois não é assim tão sucinto), apenas parcialmente:

"Todos os meus amigos escrevem. Excelente. Todos os meus amigos gostam de escrever. Formidável. Eu próprio não desgosto de escrever, embora já não o faça. Escrever é bom. Escrever as palavras. Escrever as coisas. Escrever o mundo. O mundo dentro de nós. E o mundo fora de nós. Todos os meus amigos escrevem. Todos os meus amigos são escritores. Todos os meus amigos fazem livros. E o pior é que não são só os meus amigos. As outras pessoas também. (...) A doença é altamente contagiante. Faz o Ebola parecer um vírus de brinquedo, tal a velocidade a que se reproduz e transmite. O periodo de incubação dura entre três a seis horas, findo o qual a vítima, até então uma pessoa normal, se torna abruptamente num escritor. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras, a abarrotar de gente obcecada pela sua dose de papel e de caneta.(...) Os cientistas ainda não conseguiram isolar o vírus, ou encontrar um antídoto, ou mesmo simplesmente identificar a origem da doença, ou explicar-lhe a natureza, porque...pois, isso mesmo, stõ todos oupados a escrever. Há pessoas que já definharam e se consumiram por inanação. Nada de espantar, é até bastante lógico, embora escabroso: escrevem, não comem, morrem. (...) Há, claro, coisas boas. as televisões deixaram de funcionar. acabaram-se as telenovelas, as "novelas da vida real", e a ironia é que acabaram precisamente na altura em que se multilicou por mil o número de autores de telenovelas. Só que já não há ninguém para as filmar. (...) Não sei por que motivo fiquei imune ao vírus (...) Eu sou um leitor. Sei o que sou:leio o que os outros escrevem. Faço-o até compulsivamente (...) Sou um leitor num mundo de escritores, e isso faz-me sentir muito sozinho. Porque todos escrevem - mas ninguém lê o que os outros escrevem. Ninguém senão eu. Não tem tempo. (...)

3 Comments:

At 12:19 da manhã, Blogger neu said...

Eu li o que tu citaste... o que tu ecreveste. Eu escrevo, mas não sou escritora, apenas algo em potência...

Parece que há mais qualquer coisa em potência por aqui, acho mal não teres dito logo à amiga como ficou combinado, mas tudo bem.

Boa escolha para o 1º/2º post (LOL), uma outra faceta de Rui Zink, igualmente boa como sempre!!
Continua a espelhar quem és, aqui neste bocadinho de terra do mundo cibernético.

Bjokas grandes... vou voltar de certeza!!!

 
At 10:44 da manhã, Blogger Llew said...

que texto profundo.... é como o "artista bastos" diz: Dizem tudo e ao mesmo tempo nao dizem nada! Há que dizê-lo com frontalidade! Bah! Ah pala destas profundidades que estes mitras que sugam o dinheiro a cada contribuinte e ficam ricos e arrogantes! :P

 
At 10:51 da manhã, Blogger ritinha said...

bah...manel n percebes nada disto :P

 

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